Após décadas de perda de dinamismo, a indústria brasileira enfrenta hoje um ponto crucial: como retomar o protagonismo no cenário global e nacional? Em meio à desaceleração do setor e ao acirramento da concorrência internacional, é fundamental compreender os obstáculos históricos e apontar soluções concretas para uma retomada sustentável e inclusiva.
Nas últimas duas décadas, a indústria de transformação passou de quase um terço do PIB para cerca de 25,5%. Esse recuo reflete uma série de entraves internos que se acumularam ao longo dos anos, reduzindo o ritmo de lançamentos e dificultando a atração de investimentos.
Relatórios de instituições como CNI, FGV Ibre e Ipea destacam a perda contínua de participação da indústria no mercado global. A produtividade estagnada e o déficit em inovação tornaram o Brasil um competidor fragilizado, incapaz de aproveitar plenamente o potencial de um mercado interno robusto.
O chamado "Custo Brasil" é o conjunto de fatores que encarecem o processo produtivo no país. Trata-se de um entrave estrutural que se manifesta em diversas dimensões e afeta diretamente a capacidade de competir.
Esses elementos compõem o conjunto de dificuldades estruturais que elevam o preço final dos produtos brasileiros e desencorajam investimentos de longo prazo. A falta de simplificação e transparência no ambiente de negócios aumenta o risco e reduz a atratividade para empreender.
A deficiência em transportes e energia agrava ainda mais a equação da competitividade. Estradas mal conservadas, portos congestionados e uma malha ferroviária subutilizada elevam o lead time e encarecem cada etapa da cadeia produtiva.
Esses rankings ilustram o peso de uma infraestrutura mal conservada e ineficiente que limita a integração ao mercado global. Para avançar, é preciso investir em modernização de portos, ampliação da malha ferroviária e renovação das rodovias, além de adotar práticas logísticas digitais que reduzam tempos e custos.
O Brasil possui um mercado interno robusto e diversificado capaz de sustentar cadeias produtivas adensadas, mas sem infraestrutura adequada, essa vantagem não se converte em competitividade real.
A alta persistente da taxa Selic, que já atingiu 15% ao ano, impacta diretamente o custo de capital e inibe o acesso a linhas de crédito para a indústria. Setores intensivos em capital, como bens duráveis e máquinas, sentem fortemente essa restrição.
Segundo a CNI, o alto custo de capital foi apontado como o principal freio ao investimento em 2025. Lançamentos de produtos caíram 13,8%, a maior retração em 15 anos, com efeito direto sobre a geração de empregos e a renovação de parques industriais.
Para viabilizar a retomada, é necessário articular políticas de crédito subsidiado, fundos de longo prazo e garantias que estimulem os setores estratégicos, além de aproveitar as janelas de redução de juros para projetos de produtividade e inovação.
Uma política industrial ativa e ousada deve combinar incentivos à inovação, digitalização e sustentabilidade. Em vez de subsídios horizontais, a estratégia deve focar em setores com maior potencial de agregação de valor e em cadeias produtivas regionalizadas.
O uso de instrumentos como a Nova Indústria Brasil (NIB) precisa ser simplificado, com métricas claras de desempenho e contrapartidas em termos de produtividade. A reforma tributária, quando bem desenhada, pode reduzir a carga sobre a produção e aumentar a previsibilidade para investimentos.
Projetos de pesquisa e desenvolvimento, parcerias público-privadas em infraestrutura e programas de capacitação devem andar lado a lado. A adoção de economia de baixo carbono e de inovação e sustentabilidade como pilares de competitividade global garante acesso a mercados que valorizam práticas limpas e inclusivas.
A abundância de recursos naturais do Brasil é uma oportunidade única para desenvolver bioindústrias e cadeias de valor renováveis. A diversificação das fontes de energia e o estímulo à bioeconomia podem gerar empregos e ampliar as exportações sem abrir mão da preservação ambiental.
O caminho para a reindustrialização passa por encarar de frente os desafios estruturais: modernizar a infraestrutura, simplificar o ambiente de negócios, reduzir o custo do capital e fomentar a inovação. Essa transformação exige coordenação entre governo, iniciativa privada e centros de pesquisa, em um esforço coletivo para restabelecer a vocação industrial do país.
Mais que retomar números, o Brasil precisa resgatar a confiança de investidores e trabalhadores, promovendo uma indústria mais qualificada, sustentável e conectada aos desafios do século XXI. Somente assim, com uma visão estratégica e ações integradas, será possível reconquistar competitividade e garantir prosperidade de longo prazo para todos.
Referências